BERA com sedação durante timpanotomia e adenoidectomia: quando os procedimentos podem ser combinados
Conteúdo clínico e revisão médica: Dra. Ana Carolina Pires de Mello, Otorrinolaringologista e Otologista pela USP, CRM-RJ 114485-5 | RQE 51789. Atua na avaliação clínica e cirúrgica das doenças do ouvido em pacientes de diferentes faixas etárias.
Participação técnica em Audiologia e Eletrofisiologia: Fonoaudióloga Valéria Neves, responsável pela avaliação eletrofisiológica auditiva no contexto abordado neste conteúdo.
Última revisão médica: 3 de novembro de 2026.
Seu filho precisa colocar tubos de ventilação nos ouvidos, retirar a adenoide e também realizar um BERA que exigiria sedação. Esses procedimentos precisam acontecer obrigatoriamente em dias diferentes?
Nem sempre.
Em crianças cuidadosamente selecionadas, quando cada procedimento possui sua própria indicação clínica, a equipe pode avaliar a possibilidade de coordenar a timpanotomia com colocação de tubo de ventilação, a adenoidectomia e a avaliação auditiva com BERA dentro do mesmo planejamento anestésico.
Existe, porém, uma diferença fundamental entre coordenar procedimentos necessários e realizar exames ou cirurgias apenas porque a criança já estará anestesiada.
A lógica correta é:
há indicação para a cirurgia do ouvido + há indicação para a adenoidectomia + há indicação para o BERA sob sedação = a equipe avalia se é tecnicamente e clinicamente apropriado coordená-los.
Timpanotomia, retirada da adenoide e BERA têm objetivos diferentes. O benefício potencial da combinação não está simplesmente em “fazer tudo de uma vez”, mas em organizar cuidados que já seriam necessários, considerando a segurança da criança, o tempo anestésico, a sequência dos procedimentos e a qualidade da avaliação auditiva.
Estudos recentes descrevem especificamente a realização combinada de colocação de tubos de ventilação e BERA sob sedação em crianças, enquanto diretrizes de Otorrinolaringologia estabelecem critérios próprios para a indicação dos tubos e da adenoidectomia.
Fonte científica:
Tympanostomy Tube Placement and Auditory Brainstem Response Test Under Sedation, PubMed
Fonte científica:
Clinical Practice Guideline: Tympanostomy Tubes in Children, AAO-HNS
Resposta rápida
Timpanotomia com tubo de ventilação, adenoidectomia e BERA podem ser realizados durante o mesmo planejamento anestésico em situações selecionadas, desde que cada procedimento tenha indicação própria.
A associação não é um protocolo obrigatório para crianças com otite, adenoide aumentada ou suspeita de perda auditiva. A decisão depende da situação do ouvido médio, da idade, dos sintomas relacionados à adenoide, da necessidade de avaliação auditiva objetiva, das condições clínicas da criança e da avaliação conjunta das equipes envolvidas.
Além disso, quando o BERA é realizado imediatamente após a timpanotomia e a colocação dos tubos, o estado prévio do ouvido médio e a própria intervenção podem influenciar temporariamente alguns resultados. Por isso, a sequência e a interpretação do exame precisam ser planejadas com cuidado.
Fonte científica:
Clinical Decision Making for Intraoperative Auditory Brainstem Response Testing, PubMed
Timpanotomia, adenoidectomia e BERA podem ser realizados juntos?
Podem, em situações selecionadas.
Os três procedimentos, porém, respondem a problemas diferentes.
A timpanotomia com tubo de ventilação procura tratar determinadas alterações do ouvido médio.
A adenoidectomia trata indicações relacionadas à adenoide e pode complementar o manejo otológico em situações específicas.
O BERA, também chamado de PEATE, avalia objetivamente respostas eletrofisiológicas do sistema auditivo.
Quando a criança necessita dessas três abordagens e a equipe considera apropriado coordená-las, elas podem fazer parte de um mesmo planejamento anestésico.
Isso não significa que toda criança que coloca tubo precise retirar a adenoide.
Também não significa que toda criança submetida à timpanotomia precise realizar BERA.
E não significa que a existência de uma anestesia seja, por si só, justificativa suficiente para acrescentar qualquer outro procedimento.
Cada indicação precisa existir independentemente.
Por que uma criança pode precisar de timpanotomia com tubo de ventilação?
O ouvido médio é uma pequena cavidade localizada atrás do tímpano.
Para funcionar adequadamente, essa região precisa permanecer ventilada.
Quando existe acúmulo persistente de líquido atrás do tímpano, quadro conhecido como otite média com efusão, otite serosa ou otite secretora, a transmissão do som pode ser prejudicada.
A criança pode apresentar:
- audição reduzida
• sensação de ouvido cheio
• dificuldade para perceber determinados sons
• alterações de atenção relacionadas à dificuldade auditiva
• episódios recorrentes de otite em determinados contextos
A diretriz atualizada da American Academy of Otolaryngology, Head and Neck Surgery recomenda avaliação auditiva quando a otite média com efusão permanece por três meses ou mais ou antes da cirurgia quando a criança se torna candidata à colocação de tubos. Para crianças com efusão bilateral por três meses ou mais e dificuldade auditiva documentada, a inserção bilateral de tubos deve ser oferecida.
Fonte científica:
Executive Summary of Clinical Practice Guideline on Tympanostomy Tubes in Children, PubMed
O artigo o nosso site sobre otite serosa também explica que a presença de secreção na orelha média pode produzir perda auditiva condutiva e que, em casos selecionados, a colocação do tubo de ventilação pode ser indicada.
Leia também:
Otite serosa e colocação de tubo de ventilação
O que é o carretel colocado no ouvido?
O termo “carretel” é a forma popular utilizada por muitas famílias para se referir ao tubo de ventilação ou tubo de timpanostomia.
É um pequeno dispositivo colocado no tímpano para permitir ventilação do ouvido médio.
Na literatura médica, o procedimento de realizar uma pequena abertura na membrana timpânica também pode aparecer descrito como miringotomia. Por isso, famílias podem encontrar expressões como timpanotomia, miringotomia, colocação de tubo de ventilação e colocação de carretel ao pesquisar sobre esse tratamento.
Durante o procedimento, é realizada uma pequena abertura no tímpano. Quando existe secreção, ela pode ser aspirada e o tubo é posicionado.
Sua função é ajudar a ventilar a cavidade do ouvido médio enquanto a condição que prejudicou essa ventilação é acompanhada.
Tubo de ventilação, tubo de timpanostomia e carretel são, portanto, expressões usadas no contexto do mesmo dispositivo.
Toda criança com líquido no ouvido precisa colocar carretel?
Não.
Muitos episódios de otite média com efusão podem melhorar espontaneamente.
A diretriz da AAO-HNS recomenda não realizar inserção de tubo em uma criança com episódio único de efusão com duração inferior a três meses. A decisão cirúrgica considera duração do líquido, audição, recorrência, sintomas, fatores de risco para desenvolvimento e características individuais.
Fonte científica:
Clinical Practice Guideline: Tympanostomy Tubes in Children, PubMed
Isso reforça uma mensagem importante para os pais:
presença de líquido atrás do tímpano não significa automaticamente indicação cirúrgica.
Quando a adenoidectomia pode ser associada à timpanotomia?
A adenoide é um tecido localizado na região posterior do nariz, próximo à área onde as tubas auditivas se comunicam com a nasofaringe.
Quando aumentada ou cronicamente inflamada, pode estar relacionada a sintomas como obstrução nasal e outros problemas otorrinolaringológicos.
A adenoidectomia pode ser associada à colocação de tubos, mas uma cirurgia não é consequência automática da outra.
A diretriz atualizada da AAO-HNS estabelece que a adenoidectomia pode ser considerada como procedimento associado aos tubos em crianças com sintomas diretamente relacionados à adenoide, como obstrução nasal ou infecção adenoideana. Em crianças com quatro anos ou mais, também pode ser considerada com o objetivo de potencialmente reduzir novos episódios de otite ou a necessidade futura de novos tubos.
Fonte científica:
Diretriz atualizada sobre tubos de timpanostomia, PubMed
Adenoide e tubo de ventilação sempre são operados juntos?
Não.
Uma criança pode necessitar de tubo sem possuir indicação para adenoidectomia.
Outra pode apresentar hipertrofia de adenoide com indicação cirúrgica e não precisar de tubo.
E uma terceira pode preencher critérios para os dois procedimentos.
Adenoidectomia e timpanotomia podem ser realizadas juntas, mas a decisão depende da idade, dos sintomas relacionados à adenoide, do histórico de otites, da condição do ouvido médio e da avaliação individual.
Por que algumas crianças precisam fazer BERA com sedação?
O BERA, também chamado de PEATE, Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico, registra respostas elétricas produzidas pelo sistema auditivo depois que estímulos sonoros são apresentados.
O paciente não precisa apertar um botão, levantar a mão ou dizer quando ouviu.
Isso torna o BERA especialmente útil em bebês e crianças pequenas que ainda não conseguem responder de forma confiável a determinados exames comportamentais.
Para produzir um registro tecnicamente adequado, entretanto, é importante reduzir movimentos e atividade muscular.
Bebês pequenos muitas vezes conseguem realizar o exame durante sono natural. Crianças maiores, muito ativas ou que não conseguem permanecer imóveis pelo tempo necessário podem precisar de sedação ou anestesia em situações selecionadas.
A ASHA destaca que alguns bebês e crianças podem necessitar de sedação monitorizada ou anestesia geral para permitir tempo suficiente para obter registros confiáveis e informações de frequência específica. Também ressalta que sedação pediátrica envolve riscos e deve ser realizada com profissionais treinados, monitorização adequada e estrutura apropriada.
Fonte científica:
ASHA, Hearing Loss in Children e ABR pediátrico
Para compreender detalhadamente o exame, leia o nosso artigo:
Como funciona o exame BERA (PEATE)
E, para entender especificamente quando a sedação pode ser considerada:
Quando o BERA com sedação pode ser necessário
Quando o BERA pode ser realizado durante o mesmo evento anestésico?
Imagine uma criança que já possui indicação para uma cirurgia otorrinolaringológica e, separadamente, necessita de um BERA que provavelmente exigiria sedação.
Nesse cenário, surge uma pergunta legítima:
é necessário organizar outro evento de sedação ou anestesia apenas para realizar o exame auditivo?
Nem sempre.
A equipe pode avaliar se é tecnicamente adequado realizar a avaliação auditiva durante o mesmo planejamento anestésico.
Em 2026, um estudo retrospectivo descreveu 28 casos pediátricos nos quais colocação de tubos de timpanostomia foi realizada em conjunto com BERA sob sedação. Todos os procedimentos planejados foram concluídos. O estudo, porém, também registrou eventos adversos relacionados à sedação em seis pacientes, cinco deles respiratórios menores e um caso de laringoespasmo que exigiu intubação não planejada e internação em UTI pediátrica.
Fonte científica:
Tympanostomy Tube Placement and Auditory Brainstem Response Test Under Sedation, PubMed
Esse resultado ajuda a compreender dois pontos simultaneamente.
A coordenação é factível em pacientes selecionados.
Mas “usar a mesma sedação” não significa que a sedação deixa de ter riscos.
O que a literatura permite concluir sobre os três procedimentos juntos?
É importante não extrapolar os estudos além do que eles realmente avaliaram.
O estudo publicado em 2026 investigou especificamente a realização de colocação de tubos de ventilação associada ao BERA sob sedação. Nesse estudo específico, os procedimentos foram coordenados sob sedação fora do centro cirúrgico, em ambiente pediátrico preparado para esse cuidado. Portanto, seus resultados demonstram a viabilidade daquela estratégia específica e não devem ser automaticamente extrapolados para todos os cenários cirúrgicos ou anestésicos.
Ele demonstra que essa coordenação é tecnicamente possível em pacientes selecionados, mas não estabelece timpanotomia, adenoidectomia e BERA como um protocolo conjunto indicado para todas as crianças.
Outro estudo, publicado em 2023, avaliou BERA intraoperatório em crianças submetidas a diferentes procedimentos otorrinolaringológicos e incluiu pacientes que também realizaram adenoidectomia. Seu foco, porém, foi compreender como a condição do ouvido médio e a colocação recente dos tubos poderiam interferir nos resultados do BERA.
Portanto, a literatura apoia a possibilidade de coordenar cuidados quando existem indicações independentes, mas a decisão de associar os três procedimentos continua sendo individualizada.
Fontes científicas:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41450225/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36769478/
Por isso, a decisão precisa considerar indicação, estrutura, equipe, tempo e condições clínicas da criança.
Sedação e anestesia geral são a mesma coisa?
Não.
Sedação e anestesia geral correspondem a diferentes níveis e estratégias de cuidado anestésico. O tipo utilizado depende do procedimento cirúrgico, da idade, das condições clínicas da criança e do planejamento da equipe de anestesia.
Por isso, quando BERA, timpanotomia e adenoidectomia são coordenados, é mais preciso falar em mesmo planejamento ou evento anestésico do que presumir que todas as crianças serão submetidas ao mesmo tipo de sedação.
A escolha anestésica é responsabilidade da equipe habilitada e deve considerar tanto a segurança da criança quanto as características dos procedimentos que serão realizados.
Qual é a vantagem de coordenar procedimentos que já possuem indicação?
A principal vantagem potencial é reduzir a necessidade de organizar procedimentos separados quando todos já são clinicamente necessários.
Isso pode significar:
- uma única preparação pré-operatória
• um único período de jejum, conforme protocolo anestésico
• um único deslocamento para o procedimento
• possibilidade de evitar outro evento de sedação ou anestesia, quando clinicamente apropriado
• integração entre tratamento otológico e avaliação audiológica
Mas existe uma condição essencial:
o benefício só existe quando os procedimentos já são necessários.
Não é correto aumentar o número de procedimentos apenas para “aproveitar” a anestesia.
Fazer tudo na mesma anestesia é sempre melhor?
Não.
Essa provavelmente é uma das perguntas mais importantes deste artigo.
Combinar procedimentos pode ser conveniente e clinicamente racional em determinados pacientes, mas não representa automaticamente a melhor escolha para todas as crianças.
A equipe precisa considerar:
- indicação de cada procedimento
• idade e condições clínicas
• duração total prevista
• tipo de anestesia ou sedação
• riscos anestésicos individuais
• sequência dos procedimentos
• possibilidade de o procedimento otológico modificar temporariamente o BERA
• necessidade de acompanhamento auditivo posterior
Um estudo de 2023 sobre BERA intraoperatório após colocação de tubos mostrou que o exame pode apresentar alterações temporárias quando realizado logo depois da cirurgia, principalmente em ouvidos que continham secreção mucoide.
Fonte científica:
Clinical Decision Making for Intraoperative ABR Testing, estudo completo
Além disso, uma revisão sistemática publicada em 2026 concluiu que diferentes anestésicos e vias de administração apresentam graus variáveis de sucesso para sedação e podem afetar as formas de onda do BERA. Os autores ressaltaram que a evidência disponível ainda é limitada para estabelecer definitivamente a melhor escolha anestésica em todos os cenários.
Fonte científica:
Impact of anesthetics choice on ABR testing in children, PubMed
Isso demonstra por que otorrino, audiologia e anestesia precisam planejar o caso em conjunto.
Em que ordem timpanotomia e BERA são realizados?
Não existe uma sequência universal adequada para todas as crianças.
Em algumas situações, tratar primeiro a alteração do ouvido médio pode ser importante porque a secreção atrás do tímpano interfere na transmissão do estímulo sonoro.
Ao mesmo tempo, realizar o BERA imediatamente depois da aspiração de secreção e colocação do tubo pode criar desafios próprios de interpretação.
Por isso, a sequência depende da pergunta clínica, das condições encontradas no ouvido durante a cirurgia, do protocolo audiológico e do planejamento previamente estabelecido.
O estudo de 2023 sobre BERA intraoperatório reforça que resultados obtidos logo após a colocação de tubos precisam ser interpretados dentro do contexto da condição prévia do ouvido médio e da intervenção recém-realizada.
Fonte científica:
Estudo sobre BERA intraoperatório após tubos de ventilação
A colocação do tubo de ventilação pode interferir no BERA?
Pode interferir temporariamente em determinadas circunstâncias.
Esse é um detalhe particularmente importante quando os procedimentos são combinados.
No estudo de 2023, 83 crianças foram avaliadas após procedimentos cirúrgicos. Entre 163 ouvidos operados, a presença de secreção mucoide antes do tubo esteve associada a maior probabilidade de prolongamento da latência da onda I. O risco foi aproximadamente 4,6 vezes maior em ouvidos com secreção mucoide do que naqueles sem esse tipo de secreção. Os autores concluíram que o BERA intraoperatório após colocação do tubo precisa ser interpretado com cautela e verificado posteriormente.
Fonte científica:
PubMed, PMID 36769478
O estudo também discute relatos anteriores em que limiares aparentemente piores imediatamente após a cirurgia melhoraram posteriormente. Entre as possíveis explicações estão alterações inflamatórias ainda presentes no ouvido médio e efeitos temporários relacionados à aspiração da secreção.
Fonte científica:
Clinical Decision Making for Intraoperative ABR Testing, texto completo
O que isso significa para os pais?
Significa que:
realizar o BERA no mesmo ato cirúrgico não significa que seu resultado possa ser interpretado sem considerar aquilo que acabou de acontecer no ouvido.
A presença prévia de secreção, a condição da orelha média e a intervenção cirúrgica fazem parte do contexto do exame.
Em algumas crianças, o resultado intraoperatório poderá precisar ser confirmado posteriormente.
Então por que realizar BERA depois da timpanotomia?
Porque a decisão depende da pergunta que a equipe precisa responder.
O líquido no ouvido médio pode criar uma perda auditiva condutiva e modificar a passagem do estímulo sonoro.
Em algumas situações, tratar a orelha média antes do registro ajuda a abordar esse componente.
Entretanto, como a intervenção também pode produzir efeitos transitórios sobre o exame, a equipe precisa interpretar o resultado dentro daquele contexto.
Não existe uma ordem universal válida para todas as crianças.
O planejamento deve ser individual.
O que é BERA de frequência específica?
O BERA de frequência específica utiliza estímulos planejados para fornecer informações relacionadas a diferentes regiões de frequência da audição.
Em vez de depender apenas de um estímulo amplo, como o clique, podem ser empregados estímulos como tone burst ou chirp em diferentes frequências.
Isso permite estimar respostas eletrofisiológicas relacionadas a faixas importantes da audição.
A ASHA informa que estímulos de frequência específica são utilizados no ABR para estimativa de limiares auditivos, frequentemente envolvendo frequências como 500, 1.000, 2.000 e 4.000 Hz.
Fonte científica:
ASHA, avaliação audiológica infantil e ABR
A avaliação descrita no conteúdo que originou este artigo também inclui BERA e pesquisa de frequência específica dentro do planejamento audiológico da criança.
Para aprofundar esse tema:
Exame BERA (PEATE), guia completo
BERA realizado durante a cirurgia substitui todos os exames auditivos posteriores?
Não.
O BERA fornece informações objetivas importantes sobre o sistema auditivo, mas não torna desnecessário todo acompanhamento futuro.
Dependendo da idade, da condição da orelha média, do diagnóstico e dos resultados obtidos, a criança poderá precisar posteriormente de:
- audiometria comportamental
• imitanciometria
• emissões otoacústicas
• repetição de avaliação eletrofisiológica em situações selecionadas
• acompanhamento otorrinolaringológico
• acompanhamento audiológico
A ASHA recomenda que as respostas comportamentais da criança sejam confirmadas assim que seu desenvolvimento permitir, porque o BERA mede respostas eletrofisiológicas até o tronco encefálico e não substitui toda a avaliação auditiva comportamental.
Fonte científica:
ASHA, Hearing Loss in Children
Nos casos de BERA realizado logo após a colocação de tubos, a necessidade de acompanhamento ganha importância adicional devido à possibilidade de alterações temporárias no registro intraoperatório.
Fonte científica:
Estudo sobre BERA após timpanostomia, PubMed
Quais profissionais participam do procedimento combinado?
A coordenação desse tipo de cuidado é multidisciplinar.
Otorrinolaringologista
Avalia a criança, define a indicação cirúrgica e realiza os procedimentos otorrinolaringológicos indicados, como timpanotomia, colocação do tubo de ventilação e adenoidectomia.
Fonoaudióloga ou profissional responsável pela avaliação audiológica
Realiza a avaliação eletrofisiológica conforme o protocolo definido e participa da análise técnica das respostas auditivas.
No cenário que inspirou este conteúdo, a atuação conjunta é descrita pela Dra. Ana Carolina Pires de Mello e pela fonoaudióloga Valéria Neves, da Clínica Luiz Pires de Mello.
Equipe de anestesia
Avalia as condições clínicas da criança, define a estratégia anestésica, acompanha os parâmetros vitais e conduz a recuperação anestésica.
A sedação ou anestesia para exames auditivos pediátricos exige estrutura adequada, monitorização contínua e profissionais preparados para reconhecer e tratar possíveis complicações.
Fonte científica:
ASHA, considerações sobre sedação pediátrica durante avaliação auditiva
Nem toda criança precisa dos três procedimentos
Este ponto merece destaque:
timpanotomia, adenoidectomia e BERA respondem a problemas diferentes. O fato de poderem ser realizados dentro do mesmo planejamento anestésico não significa que devam ser solicitados em conjunto. Cada procedimento precisa possuir indicação clínica própria.
Uma criança pode necessitar somente do tubo.
Outra pode precisar de adenoidectomia e não apresentar indicação de BERA.
Outra pode necessitar de BERA sob sedação sem precisar de qualquer cirurgia otológica.
E determinadas crianças podem possuir indicações independentes para todos esses cuidados, situação em que a coordenação passa a ser discutida.
Essa individualização é o que separa um planejamento clínico adequado da ideia simplificada de “aproveitar a anestesia para fazer tudo”.
Como é feita a avaliação antes da cirurgia?
Antes de combinar procedimentos, a equipe precisa responder perguntas diferentes.
O ouvido médio precisa de tratamento cirúrgico?
A avaliação pode considerar histórico de otites, presença e duração da efusão, audição, otoscopia, imitanciometria e outros elementos pertinentes ao caso.
Existe indicação própria para adenoidectomia?
O médico avalia sintomas relacionados à adenoide, como obstrução nasal, infecções e contexto otológico, além da idade da criança.
Existe indicação para BERA?
É necessário compreender por que a audição precisa de uma medida eletrofisiológica e por que o exame não será adequadamente obtido em sono natural ou com técnicas comportamentais.
A criança pode realizar os procedimentos no mesmo planejamento?
A equipe avalia condições clínicas, anestesia, duração prevista e possíveis interferências entre cirurgia e exame.
Essa etapa é essencial porque a associação dos procedimentos precisa ser planejada antes da criança entrar na sala, e não decidida apenas pela conveniência de ela já estar anestesiada.
Como funciona o acompanhamento depois da colocação dos tubos?
A colocação dos tubos não encerra o acompanhamento.
A diretriz da AAO-HNS recomenda que a criança seja examinada em até três meses depois da inserção dos tubos e que a família receba orientação sobre acompanhamento periódico até a extrusão dos dispositivos.
Fonte científica:
Executive Summary, Tympanostomy Tubes in Children
Dependendo da situação, o seguimento pode avaliar:
- posição e funcionamento dos tubos
• condição do tímpano
• presença de secreção
• melhora da ventilação do ouvido médio
• evolução da audição
• necessidade de novos exames
Quando houve BERA intraoperatório, o acompanhamento também permite relacionar o resultado obtido durante a anestesia à evolução auditiva posterior.
Timpanotomia, adenoidectomia e BERA no mesmo planejamento
| Procedimento | Objetivo principal | Por que pode fazer parte do mesmo planejamento |
| Timpanotomia com tubo | Ventilar o ouvido médio e tratar efusão em casos indicados | A criança já apresenta indicação cirúrgica otológica |
| Adenoidectomia | Tratar indicação relacionada à adenoide e, em situações selecionadas, complementar o manejo otológico | Pode existir indicação concomitante |
| BERA ou PEATE | Avaliar objetivamente respostas auditivas | A criança pode precisar de sono profundo, sedação ou anestesia para o registro |
| BERA de frequência específica | Estimar respostas relacionadas a diferentes frequências | Pode ampliar a caracterização audiológica quando clinicamente indicado |
A palavra central nessa tabela é indicação.
Não existe um “pacote” obrigatório de procedimentos.
Quais perguntas os pais devem fazer antes do procedimento?
Antes de uma cirurgia combinada, vale compreender claramente o plano.
Pergunte:
- Por que meu filho precisa do tubo de ventilação?
- Qual é a indicação específica para retirar a adenoide?
- Por que o BERA precisa ser realizado com sedação ou anestesia?
- Existe possibilidade de realizar o BERA em sono natural?
- Qual é a vantagem de combinar os procedimentos neste caso?
- Quanto tempo o procedimento completo pode durar?
- Em qual sequência os procedimentos serão realizados?
- A presença de secreção no ouvido pode interferir no BERA?
- O resultado precisará ser confirmado depois?
- Como será o acompanhamento auditivo após a cirurgia?
Entender essas respostas ajuda a família a participar de uma decisão clínica compartilhada.
Perguntas frequentes
BERA pode ser feito durante uma cirurgia?
Sim, em situações selecionadas. Quando a criança possui indicação independente para BERA e para um procedimento cirúrgico que exige anestesia, a equipe pode considerar a realização coordenada.
Pode fazer BERA junto com cirurgia de adenoide?
Pode ser possível quando existe indicação clínica tanto para a adenoidectomia quanto para o BERA e a equipe considera adequado coordenar os procedimentos.
BERA pode ser feito junto com a colocação do carretel?
Sim. Há literatura científica sobre realização de BERA junto à colocação de tubos de timpanostomia, mas o resultado do exame precisa ser interpretado considerando a condição do ouvido médio e o momento da cirurgia.
O que é timpanotomia com tubo de ventilação?
É um procedimento em que se realiza uma pequena abertura no tímpano e se coloca um tubo para favorecer a ventilação do ouvido médio em situações indicadas.
Para que serve o carretel no ouvido?
O carretel, também chamado tubo de ventilação, ajuda a ventilar o ouvido médio e pode ser utilizado em crianças selecionadas com otite média com efusão ou outras indicações apropriadas.
Timpanotomia e adenoidectomia podem ser feitas juntas?
Sim, quando ambas possuem indicação. A adenoidectomia não é obrigatória para toda criança que recebe tubos.
Toda criança que coloca carretel precisa retirar a adenoide?
Não. A adenoidectomia possui critérios próprios de indicação.
Toda criança que faz timpanotomia precisa fazer BERA?
Não. O BERA só deve ser realizado quando existe indicação específica para avaliação eletrofisiológica da audição.
Por que o BERA precisa de sedação em algumas crianças?
Porque movimentos e atividade muscular podem prejudicar o registro. Algumas crianças não conseguem permanecer em sono natural ou imóveis pelo tempo necessário.
Qual a vantagem de realizar o BERA no mesmo evento anestésico?
Quando o BERA e a cirurgia já são necessários, a coordenação pode evitar um evento de sedação ou anestesia separado. Isso não torna a decisão automaticamente melhor para todas as crianças.
O tubo de ventilação pode interferir no BERA?
Pode, especialmente quando havia secreção no ouvido médio. Estudos mostram que alterações temporárias podem ocorrer imediatamente depois da colocação dos tubos.
O BERA deve ser feito antes ou depois da timpanotomia?
Não existe uma regra universal. A sequência deve considerar a condição do ouvido, a pergunta audiológica e o protocolo definido pela equipe.
O que é BERA de frequência específica?
É um protocolo que utiliza estímulos destinados a fornecer informações relacionadas a diferentes frequências da audição.
BERA com sedação é seguro?
Sedação é utilizada rotineiramente em diferentes procedimentos pediátricos, mas não é isenta de riscos. Ela deve ser indicada individualmente e realizada com equipe treinada, monitorização e estrutura adequadas.
A anestesia pode interferir no BERA?
Alguns anestésicos podem modificar características das formas de onda do exame. Uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou efeitos variáveis conforme o agente anestésico e destacou a necessidade de considerar esse fator na interpretação.
Fonte científica:
Revisão sistemática sobre anestésicos e BERA pediátrico
BERA durante a cirurgia substitui audiometria?
Não. O BERA fornece respostas eletrofisiológicas e não substitui automaticamente a avaliação comportamental quando a criança já consegue realizá-la.
É necessário repetir exames auditivos depois da cirurgia?
Pode ser necessário. A decisão depende do resultado, da condição do ouvido médio, da idade e da evolução da audição.
Quem realiza o BERA durante o procedimento?
O exame é realizado pelo profissional capacitado em avaliação audiológica e eletrofisiologia dentro de um planejamento conjunto com a equipe médica e anestésica.
Quando a secreção no ouvido pode alterar a audição da criança?
A presença de líquido no ouvido médio pode produzir perda auditiva condutiva porque interfere na transmissão adequada do som até o ouvido interno.
Fonte científica:
International consensus on otitis media with effusion in children, PubMed
Quando cirurgia e avaliação auditiva precisam acontecer na mesma criança, planejamento faz toda a diferença
Não se trata de fazer três procedimentos simplesmente porque a criança já estará anestesiada.
Trata-se de reconhecer quando existem três necessidades clínicas reais e avaliar se coordená-las é a alternativa mais apropriada.
A timpanotomia trata uma condição do ouvido médio.
A adenoidectomia possui suas próprias indicações.
O BERA procura responder perguntas sobre a audição.
Quando esses três caminhos se encontram na mesma criança, o planejamento entre Otorrinolaringologia, Audiologia e Anestesia passa a ser fundamental.
E existe uma nuance que não pode ser esquecida: tratar o ouvido médio e medir a audição são objetivos diferentes. A presença de secreção, a colocação recente do tubo e até características da anestesia podem influenciar o registro eletrofisiológico.
Por isso, o melhor procedimento não é necessariamente aquele que reúne o maior número de intervenções.
É aquele que reúne as intervenções realmente necessárias, na sequência apropriada e com interpretação cuidadosa dos resultados.
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Sobre a Autora
Conteúdo clínico: Dra. Ana Carolina Pires de Mello, Clínica Luiz Pires de Mello
Participação técnica em Audiologia e Eletrofisiologia: Fonoaudióloga Valéria Neves
Responsável técnico pelo conteúdo:
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Este conteúdo foi desenvolvido com base na experiência clínica acumulada pela Clínica Luiz Pires de Mello, instituição dedicada à Otorrinolaringologia desde 1962. Com mais de seis décadas de atuação contínua, a clínica reúne tradição médica, precisão diagnóstica e atendimento centrado no paciente, contribuindo para a educação em saúde por meio de conteúdos informativos baseados em prática clínica e conhecimento científico.
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Fontes oficiais, acadêmicas e científicas
Post que serviu de inspiração para este artigo:
Post da Clínica Luiz Pires de Mello no Instagram
American Academy of Otolaryngology, Head and Neck Surgery, Clinical Practice Guideline: Tympanostomy Tubes in Children:
Diretriz oficial da AAO-HNS
Rosenfeld RM et al. Clinical Practice Guideline: Tympanostomy Tubes in Children, Update:
Publicação no PubMed
Rosenfeld RM et al. Executive Summary of Clinical Practice Guideline on Tympanostomy Tubes in Children:
Executive Summary no PubMed
Ali HM et al. Tympanostomy Tube Placement and Auditory Brainstem Response Test Under Sedation, Clinical Pediatrics, 2026:
Estudo de 2026 no PubMed
Dietrich M et al. Clinical Decision Making for Intraoperative Auditory Brainstem Response Testing in Children following Tympanostomy Tube Placement:
Estudo no PubMed
Lu Q et al. Impact of anesthetics choice on auditory brainstem response testing in children: A systematic review, 2026:
Revisão sistemática no PubMed
American Speech-Language-Hearing Association, Hearing Loss in Children:
ASHA, avaliação auditiva pediátrica e ABR
Clínica Luiz Pires de Mello, Exame BERA (PEATE):
Artigo Pilar Exame BERA (PEATE)
Clínica Luiz Pires de Mello, BERA com Sedação para Bebês e Crianças:
BERA com sedação
Clínica Luiz Pires de Mello, Otite Serosa e Carretéis:
Otite serosa e colocação de tubo de ventilação