Perda auditiva congênita em bebês: causas, fatores de risco, teste da orelhinha e diagnóstico precoce
Revisão médica: Dra. Andrea Pires de Mello, médico otorrinolaringologista, CRM-RJ 52 51976-9/ RQE 33762, chefe do Centro de Pesquisa em Audição e Equilíbrio da Clínica Pires de Mello e mestre pela Fiocruz.
Última revisão médica: 31 de agosto de 2026.
Um bebê pode parecer completamente saudável e ainda apresentar uma alteração auditiva que ninguém conseguiria perceber apenas olhando para ele.
É justamente por isso que a audição é investigada tão cedo.
A perda auditiva congênita pode estar relacionada a fatores genéticos, infecções adquiridas durante a gestação e condições ocorridas ao redor do nascimento. Algumas causas podem ter seu risco reduzido. Outras não podem ser prevenidas. Mas existe um fator sobre o qual é possível agir: o tempo até identificar a alteração auditiva.
Quanto mais cedo uma dificuldade de audição é reconhecida, mais cedo a criança e sua família podem receber acompanhamento adequado durante uma fase decisiva para o desenvolvimento da comunicação, da linguagem e da interação social.
A perda auditiva permanente presente desde o nascimento ocorre em uma parcela relativamente pequena dos recém-nascidos, mas sua relevância clínica é grande justamente porque os primeiros meses de vida representam uma janela importante para o desenvolvimento. Estimativas utilizadas na literatura brasileira apontam prevalência aproximada de 1 a 3 casos para cada mil recém-nascidos em alojamento conjunto, com frequência maior entre bebês que necessitam de cuidados intensivos neonatais.
Neste artigo, você vai entender por que um bebê pode nascer com perda auditiva, quais fatores aumentam o risco, quais infecções gestacionais merecem atenção, para que serve o teste da orelhinha, quando o BERA pode ser necessário e por que passar na triagem neonatal não elimina todo o risco de alterações auditivas futuras.
Resposta rápida
A perda auditiva congênita é aquela presente ao nascimento. Ela pode ter origem genética ou estar associada a infecções intrauterinas, complicações do período perinatal e outros fatores. A Organização Mundial da Saúde informa que fatores genéticos respondem por mais de 50% das perdas auditivas observadas em neonatos. Rubéola, citomegalovírus, toxoplasmose, sífilis e outras infecções congênitas também podem comprometer a audição. A triagem auditiva neonatal, conhecida como teste da orelhinha, ajuda a identificar bebês que precisam de investigação, mas não substitui o diagnóstico audiológico completo.
Fonte científica:
https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/339913/9789240020481-eng.pdf
Fonte oficial brasileira:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-crianca/cuidado-neonatal
O que é perda auditiva congênita?
Perda auditiva congênita é a redução da capacidade de ouvir que já está presente no momento do nascimento. Ela pode atingir apenas um ouvido ou os dois e apresentar diferentes graus de intensidade, desde alterações leves até perdas profundas.
O termo congênito descreve quando a alteração está presente, e não necessariamente sua causa.
Isso significa que perda auditiva congênita não é sinônimo de perda auditiva hereditária.
Congênita, hereditária e adquirida não significam a mesma coisa
Uma perda auditiva pode ser:
Congênita: presente desde o nascimento.
Genética: causada por alterações em genes relacionados ao sistema auditivo.
Hereditária: uma forma de alteração genética transmitida dentro de determinados padrões familiares.
Adquirida: surge depois do nascimento por infecções, exposição a ruídos, medicamentos, traumas ou outras condições.
Também existem perdas auditivas progressivas ou de início tardio, nas quais a criança apresenta audição suficiente para passar na triagem neonatal, mas desenvolve alteração posteriormente.
Essa distinção será especialmente importante ao falar sobre citomegalovírus congênito.
Quantos bebês nascem com perda auditiva?
Estimativas relatadas na literatura brasileira situam a perda auditiva neonatal em aproximadamente 1 a 3 casos por mil recém-nascidos em alojamento conjunto. Entre bebês que necessitam de UTI neonatal, a ocorrência é consideravelmente maior.
Fonte científica:
https://www.scielo.br/j/csc/a/W7GRyFX5NwhRKFvmxHsdkZN/?lang=pt
Esses números ajudam a explicar por que a audição é rastreada mesmo em bebês aparentemente saudáveis e sem histórico familiar de surdez.
A triagem neonatal procura justamente identificar alterações antes que os pais consigam perceber sinais evidentes no comportamento da criança.
Quais são as principais causas da perda auditiva congênita?
A perda auditiva congênita pode ter causas genéticas e não genéticas. A OMS descreve fatores genéticos, infecções intrauterinas e condições do período perinatal entre os principais grupos relacionados à perda auditiva nos primeiros momentos da vida.
Causas genéticas
Fatores genéticos respondem por mais de 50% das perdas auditivas encontradas em neonatos, segundo o World Report on Hearing da Organização Mundial da Saúde.
É importante interpretar essa informação corretamente.
Genética não significa necessariamente que a perda auditiva foi simplesmente “herdada dos pais”.
Mais de 250 genes já foram relacionados a perdas auditivas sindrômicas e não sindrômicas, e diferentes mecanismos genéticos podem estar envolvidos.
A perda auditiva genética pode ser:
Sindrômica
O comprometimento auditivo aparece acompanhado de outras manifestações clínicas, que podem envolver visão, sistema nervoso, coração, sistema endócrino ou outras estruturas.
Não sindrômica
A alteração auditiva aparece sem outras características clínicas que componham uma síndrome reconhecida.
Pais com audição normal podem ter um bebê com perda auditiva genética?
Sim.
Alguns padrões genéticos são recessivos. Nesses casos, os pais podem apresentar audição normal e carregar variantes genéticas que, quando combinadas no bebê, podem resultar em perda auditiva.
Por isso, ausência de pessoas surdas ou com perda auditiva conhecida na família não exclui uma causa genética.
Fonte científica:
https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/339913/9789240020481-eng.pdf
Citomegalovírus congênito e perda auditiva
O citomegalovírus, conhecido como CMV, ocupa uma posição especialmente importante na investigação da audição infantil porque pode causar perda auditiva presente ao nascimento ou alterações que aparecem posteriormente.
O CDC informa que a perda auditiva é comum em crianças com CMV congênito, inclusive naquelas que não apresentaram sinais evidentes da infecção ao nascer. A alteração pode estar presente em apenas um ouvido, progredir ou surgir posteriormente.
Um bebê com CMV pode passar no teste da orelhinha?
Sim.
Esse é um dos pontos mais importantes para pais e profissionais compreenderem.
O CDC ressalta que algumas crianças com CMV congênito podem desenvolver perda auditiva mesmo depois de terem passado na triagem auditiva neonatal. Por isso, bebês diagnosticados com CMV congênito precisam de acompanhamento auditivo periódico.
Fonte científica:
https://www.cdc.gov/cytomegalovirus/congenital-infection/hearing-loss.html
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reforçou a importância desse acompanhamento. Os estudos incluídos reuniram 56.892 recém-nascidos submetidos à triagem para CMV congênito, e a síntese encontrou uma proporção de 13,9% de comprometimento auditivo tardio no conjunto analisado. O achado reforça que ausência de perda auditiva ao nascimento não elimina a possibilidade de alteração posterior em crianças com CMV congênito.
Fonte científica:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42492315/
Existe um prazo para confirmar que o CMV é congênito?
Sim. O momento da coleta é importante. Segundo o CDC, a confirmação de CMV congênito deve ser feita por testes em urina, saliva ou sangue do recém-nascido nas primeiras duas a três semanas de vida. Depois desse período, identificar o vírus pode não permitir distinguir com segurança uma infecção adquirida durante a gestação de uma infecção adquirida após o nascimento.
Por isso, quando existe indicação clínica para investigar CMV congênito, o tempo até a realização do exame também faz parte da estratégia diagnóstica.
Fonte científica:
https://www.cdc.gov/cytomegalovirus/congenital-infection/index.html
É necessário investigar CMV em todas as gestantes?
Não existe uma recomendação universal de rastreamento sorológico rotineiro para todas as gestantes.
O CDC, por exemplo, não recomenda rastreamento rotineiro de CMV durante a gravidez nos Estados Unidos porque os testes maternos disponíveis não conseguem prever de maneira adequada quais fetos serão infectados ou desenvolverão consequências de longo prazo.
Isso não significa que CMV não deva ser investigado quando existe indicação clínica. A decisão depende do contexto obstétrico e deve seguir orientação médica.
Fonte:
https://www.cdc.gov/cytomegalovirus/congenital-infection/index.html
Rubéola durante a gestação
A rubéola é uma causa clássica e prevenível de alterações congênitas.
Quando a infecção ocorre durante a gravidez, especialmente nas fases iniciais, pode causar a síndrome da rubéola congênita, que inclui alterações auditivas, oculares, cardíacas e do desenvolvimento.
A OMS destaca a imunização contra rubéola de adolescentes e mulheres em idade reprodutiva antes da gestação como uma das estratégias para reduzir o risco de perda auditiva congênita relacionada à doença.
Fonte:
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/rubella
Rubéola e sarampo têm o mesmo papel na perda auditiva congênita?
Não.
O sarampo pode causar perda auditiva como complicação da própria infecção, mas, quando o assunto é uma infecção durante a gestação capaz de produzir síndrome congênita com comprometimento auditivo, a rubéola merece destaque específico.
Essa distinção é importante para evitar simplificações na orientação pré-concepcional.
Outras infecções congênitas relacionadas à audição
A Organização Mundial da Saúde relaciona diferentes infecções intrauterinas à perda auditiva, entre elas:
- toxoplasmose
- rubéola
- citomegalovírus
- herpes simples
- HIV
- Zika
- sífilis
Isso não significa que toda gestante com uma dessas infecções terá um bebê com perda auditiva.
O risco depende da infecção, do período da gestação, da transmissão para o feto e de diversos fatores clínicos.
A investigação e o tratamento durante a gestação devem seguir os protocolos obstétricos e infectológicos adequados a cada situação.
Quais fatores relacionados ao nascimento aumentam o risco?
Nem toda perda auditiva observada nos primeiros meses tem origem exclusivamente no período intrauterino.
Condições ao redor do nascimento também podem aumentar o risco auditivo.
A Organização Mundial da Saúde cita, entre os fatores perinatais relacionados à perda auditiva:
- asfixia ao nascimento
- hiperbilirrubinemia grave
- baixo peso ao nascer
- outras morbidades perinatais e tratamentos associados
Bebês prematuros, crianças que permanecem em UTI neonatal e recém-nascidos expostos a determinadas situações clínicas podem necessitar de protocolos específicos de triagem e acompanhamento.
Fonte:
https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/deafness-and-hearing-loss
Quais bebês apresentam indicadores de risco para perda auditiva?
Alguns recém-nascidos precisam de atenção auditiva especial mesmo quando não existem sinais visíveis de dificuldade para ouvir.
Entre os indicadores de risco descritos em referências brasileiras estão histórico familiar de perda auditiva permanente iniciada na infância, permanência prolongada em UTI neonatal, hiperbilirrubinemia grave, asfixia ou encefalopatia hipóxico-isquêmica, uso prolongado de determinados medicamentos ototóxicos, infecções congênitas, malformações craniofaciais e síndromes genéticas associadas à perda auditiva.
A presença de um fator de risco não significa que o bebê tenha perda auditiva. Ela indica que o protocolo de triagem e o acompanhamento podem precisar ser individualizados.
Por isso, o resultado do teste da orelhinha deve ser interpretado em conjunto com a história clínica e os indicadores de risco da criança.
Fontes:
https://www.sbteim.org.br/teste-da-orelhinha.aspx
https://spsp.org.br/avaliacao-auditiva-recomendacoes-atuais-para-recem-nascidos-e-criancas-maiores/
A fonte brasileira detalha inclusive UTI por mais de cinco dias, hiperbilirrubinemia com exsanguineotransfusão, aminoglicosídeos, asfixia, ECMO, infecções congênitas e malformações craniofaciais.
É possível prevenir a perda auditiva congênita?
Nem toda perda auditiva congênita pode ser prevenida.
As causas genéticas, por exemplo, não desaparecem com mudanças de comportamento durante a gestação. Entretanto, o risco de algumas causas não genéticas pode ser reduzido por meio de vacinação adequada, assistência pré-natal, prevenção de determinadas infecções e cuidado obstétrico e neonatal.
Antes da gravidez
Quando possível, o planejamento pré-concepcional permite revisar a situação vacinal, doenças maternas e medicamentos utilizados.
A imunidade contra rubéola merece atenção particular devido ao risco da síndrome da rubéola congênita.
A vacinação deve sempre seguir a orientação dos profissionais responsáveis pelo cuidado pré-concepcional.
Durante a gravidez
O pré-natal adequado permite acompanhar a saúde materna e fetal, investigar doenças conforme os protocolos indicados e tomar decisões individualizadas.
Também é importante não utilizar medicamentos por conta própria.
Como reduzir o risco de CMV?
O CMV pode ser transmitido por fluidos corporais, especialmente saliva e urina de crianças pequenas.
O CDC recomenda medidas simples para reduzir a exposição, como não compartilhar alimentos, copos, utensílios ou chupetas com crianças e lavar as mãos após trocar fraldas ou ajudar uma criança no banheiro.
Fonte:
https://www.cdc.gov/cytomegalovirus/about/index.html
Teste da orelhinha: por que todo bebê deve fazer?
O teste da orelhinha, chamado tecnicamente de Triagem Auditiva Neonatal, é uma avaliação realizada nos primeiros dias de vida para identificar recém-nascidos que possam precisar de investigação auditiva mais aprofundada.
O Ministério da Saúde informa que a triagem costuma ser realizada ainda na maternidade, geralmente no segundo ou terceiro dia de vida, é indolor e pode ser feita enquanto o bebê dorme naturalmente.
Fonte oficial:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-crianca/cuidado-neonatal
O Brasil também possui diretrizes específicas para a Triagem Auditiva Neonatal e, em 2025, o Ministério da Saúde publicou um guia atualizado para realização da TAN e seguimento assistencial.
Guia do Ministério da Saúde:
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_triagem_auditiva_neonatal.pdf
O teste da orelhinha é um diagnóstico?
Não. O teste da orelhinha é uma triagem.
Seu objetivo é separar os bebês que apresentam resposta compatível com a triagem daqueles que precisam repetir o teste ou seguir para uma avaliação audiológica diagnóstica.
Isso significa que não passar no teste da orelhinha não confirma automaticamente uma perda auditiva.
O próprio material do Ministério da Saúde explica que muitos bebês encaminhados para diagnóstico terão audição normal, enquanto outros terão a perda auditiva confirmada.
Fonte:
https://bvsms.saude.gov.br/teste-da-orelhinha/
O que acontece se o bebê não passar no teste da orelhinha?
Um resultado que exige seguimento não deve ser interpretado como diagnóstico definitivo.
O fluxo costuma seguir esta lógica:
Triagem auditiva neonatal
↓
Resultado que exige nova avaliação
↓
Reteste ou encaminhamento conforme o protocolo
↓
Avaliação audiológica diagnóstica
↓
Confirmação ou exclusão da perda auditiva
↓
Intervenção quando necessária
O passo mais importante para a família é não perder o seguimento.
O CDC destaca que bebês que não passam na triagem devem receber avaliação auditiva diagnóstica o mais cedo possível.
Quais exames podem ser usados para avaliar a audição do bebê?
A escolha depende da idade, dos fatores de risco, do resultado da triagem e da hipótese clínica.
Emissões otoacústicas
As emissões otoacústicas avaliam respostas produzidas pela cóclea e são amplamente utilizadas na triagem neonatal.
O teste é rápido e não depende de o recém-nascido levantar a mão ou responder conscientemente aos sons.
PEATE automático
O Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico automático pode ser empregado em protocolos de triagem auditiva neonatal.
Ele analisa respostas elétricas relacionadas à passagem do estímulo auditivo pelo sistema auditivo.
PEATE ou BERA diagnóstico
O BERA, também chamado de PEATE, pode fazer parte da investigação diagnóstica quando existe necessidade de estimar a função auditiva de forma objetiva.
É particularmente útil em bebês e crianças que ainda não conseguem responder aos exames comportamentais tradicionais.
A Clínica Luiz Pires de Mello dispõe de avaliação auditiva infantil e também realiza BERA, inclusive BERA com sedação em situações nas quais a equipe médica considera essa abordagem necessária.
Informações sobre BERA com sedação:
https://www.clinicaluizpiresdemello.com.br/bera-com-sedacao-bebes-e-criancas/
Confirmar a perda auditiva e descobrir sua causa são etapas diferentes
Os exames audiológicos ajudam a confirmar se existe uma alteração auditiva e a caracterizar sua intensidade e funcionamento. Descobrir por que a perda ocorreu pode exigir outra etapa da investigação.
Dependendo das características do caso, da história da gestação e do nascimento e de a perda ser unilateral ou bilateral, a avaliação etiológica pode incluir exame clínico detalhado, investigação genética, pesquisa de infecções congênitas e exames de imagem selecionados.
Não existe uma bateria única de exames indicada para todos os bebês. A investigação precisa ser direcionada pelos achados audiológicos e pelo contexto clínico.
Referências científicas:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34667865/
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9874360/
Uma revisão sobre avaliação médica de crianças com perda auditiva sensorioneural aborda história clínica, genética, CMV, imagem e exames direcionados, e a Sociedade Brasileira de Otologia também publicou recomendações para avaliação de perda auditiva infantil.
Meu bebê passou no teste da orelhinha. Então nunca terá perda auditiva?
Não necessariamente.
Passar na triagem significa que o bebê apresentou resposta adequada naquele momento e dentro do que o teste consegue avaliar.
Algumas perdas auditivas podem ser progressivas ou aparecer depois.
O CDC afirma explicitamente que um recém-nascido pode passar na triagem e desenvolver perda auditiva posteriormente.
Fonte:
https://www.cdc.gov/hearing-loss-children/articles/baby-hearing-screening.html
Essa possibilidade é particularmente relevante em crianças com determinados indicadores de risco, incluindo CMV congênito.
Por isso, o desenvolvimento auditivo e da linguagem precisa continuar sendo observado durante a infância.
Como saber se um bebê está ouvindo bem?
Nenhum comportamento isolado substitui uma avaliação auditiva.
Mesmo assim, alguns marcos ajudam pais e profissionais a acompanhar o desenvolvimento.
O CDC orienta atenção a situações como ausência de reação a sons intensos, dificuldade para localizar sons após os primeiros meses e atraso no desenvolvimento da comunicação.
Se houver dúvida sobre a audição da criança, mesmo depois de um teste da orelhinha considerado adequado, converse com o pediatra ou otorrinolaringologista.
Por que os primeiros meses fazem tanta diferença?
Os programas de detecção e intervenção precoce utilizam uma meta simples e importante:
Até 1 mês
Realizar a triagem auditiva.
Até 3 meses
Concluir a avaliação diagnóstica quando o bebê não passa na triagem.
Até 6 meses
Iniciar os serviços de intervenção quando a perda auditiva é confirmada.
Essas metas são conhecidas internacionalmente como referências 1, 3 e 6 para detecção e intervenção auditiva precoce.
Fonte:
https://www.cdc.gov/hearing-loss-children/articles/baby-hearing-screening-infographic.html
O princípio por trás desses prazos é reduzir o intervalo entre a identificação da alteração e o acesso da criança às estratégias de comunicação e acompanhamento de que necessita.
O que muda quando a perda auditiva é identificada cedo?
A perda auditiva pode interferir no desenvolvimento da comunicação, da linguagem e das habilidades sociais.
O CDC destaca que quanto mais cedo crianças com perda auditiva recebem os serviços necessários, maiores são as oportunidades de desenvolver plenamente essas habilidades.
Fonte:
https://www.cdc.gov/hearing-loss-children/treatment/index.html
Intervenção precoce não significa apenas colocar um aparelho no ouvido.
Ela pode envolver:
- acompanhamento com otorrinolaringologista e audiologia
- acompanhamento fonoaudiológico
- tecnologias auditivas quando indicadas
- estratégias para desenvolvimento da comunicação
- orientação da família
- monitoramento contínuo da audição e do desenvolvimento
A escolha depende das características e necessidades de cada criança.
Perda auditiva congênita não significa necessariamente surdez profunda
Esse é outro conceito importante para reduzir ansiedade desnecessária.
A perda auditiva pode apresentar diferentes graus e configurações.
Uma criança pode apresentar perda:
- leve
- moderada
- severa
- profunda
- unilateral
- bilateral
Duas crianças com o mesmo diagnóstico geral de “perda auditiva congênita” podem, portanto, ter necessidades completamente diferentes.
É por isso que o diagnóstico precisa identificar não apenas se existe perda auditiva, mas também seu tipo, grau, configuração e repercussão funcional.
Como é tratado um bebê com perda auditiva congênita?
Não existe um tratamento único para todas as crianças.
O cuidado depende da causa, do tipo e grau da perda, de um ou dos dois ouvidos estarem envolvidos, da anatomia das estruturas auditivas e das necessidades de desenvolvimento da criança.
Conforme a situação, podem ser considerados:
Acompanhamento audiológico
Permite monitorar se a audição permanece estável ou apresenta progressão.
Aparelho auditivo
Pode ser indicado em determinadas perdas para ampliar o acesso aos sons.
Implante coclear
Pode ser considerado em situações específicas de perda auditiva severa ou profunda, após investigação e critérios adequados.
Acompanhamento fonoaudiológico
Tem papel importante no desenvolvimento da comunicação e no acompanhamento da criança e da família.
Tratamento médico ou cirúrgico
Algumas causas específicas podem exigir outras intervenções.
O CDC ressalta que não existe uma única intervenção adequada para todas as crianças e famílias. O planejamento precisa ser individualizado.
Causas e fatores de risco em um único olhar
| Causa ou fator | Pode estar presente ao nascer? | Pode surgir ou piorar depois? | Há prevenção possível? | Pode exigir seguimento auditivo? |
| Alteração genética | Sim | Sim | Nem sempre | Sim |
| CMV congênito | Sim | Sim | O risco de exposição pode ser reduzido | Sim |
| Rubéola congênita | Sim | Pode haver repercussões duradouras | Vacinação antes da gravidez reduz o risco | Sim |
| Outras infecções congênitas | Sim | Depende da condição | Depende da infecção | Sim |
| Hiperbilirrubinemia grave | Pode afetar precocemente | Sim | Manejo neonatal reduz complicações | Sim |
| Asfixia perinatal | Pode afetar precocemente | Sim | Depende do contexto obstétrico e neonatal | Sim |
| Prematuridade e condições neonatais de risco | Podem estar associadas | Sim | Parcialmente, conforme a causa | Sim |
Perguntas frequentes sobre perda auditiva congênita
O que é perda auditiva congênita?
É uma redução da capacidade auditiva que já está presente ao nascimento. Pode ser unilateral ou bilateral e variar de leve a profunda.
Quantos bebês nascem com perda auditiva?
Estimativas relatadas na literatura brasileira situam a ocorrência em aproximadamente 1 a 3 por mil recém-nascidos em alojamento conjunto, com frequência maior entre bebês de maior risco neonatal.
Perda auditiva congênita é sempre genética?
Não. Ela pode ter origem genética, infecciosa ou estar relacionada a condições do período perinatal.
Pais que escutam normalmente podem ter um bebê com perda auditiva genética?
Sim. Certos padrões genéticos permitem que pais com audição normal tenham uma criança com perda auditiva.
Quais infecções durante a gravidez podem afetar a audição do bebê?
A OMS relaciona infecções como rubéola, CMV, toxoplasmose, herpes, sífilis, HIV e Zika à perda auditiva congênita.
Citomegalovírus pode causar surdez?
O CMV congênito pode causar perda auditiva de diferentes graus. A alteração pode estar presente ao nascimento ou aparecer posteriormente.
Rubéola na gravidez pode causar perda auditiva?
Sim. Alterações auditivas estão entre as principais manifestações da síndrome da rubéola congênita.
É possível prevenir perda auditiva congênita?
Nem todos os casos. Causas genéticas não são prevenidas por cuidados durante a gestação, mas vacinação contra rubéola antes da gravidez, pré-natal e prevenção de determinadas infecções podem reduzir alguns riscos.
Para que serve o teste da orelhinha?
Para rastrear precocemente recém-nascidos que podem precisar de investigação auditiva adicional.
Quando o teste da orelhinha deve ser feito?
O Ministério da Saúde informa que ele costuma ser realizado ainda na maternidade, logo após o nascimento e antes da alta.
O que significa não passar no teste da orelhinha?
Significa que o bebê precisa de seguimento conforme o protocolo. Não significa automaticamente que exista perda auditiva.
Passar no teste da orelhinha garante que a audição sempre será normal?
Não. Algumas perdas auditivas podem surgir ou progredir posteriormente.
Quando pode ser necessário fazer BERA no bebê?
O BERA pode ser indicado quando há necessidade de avaliação objetiva das vias auditivas e de investigação diagnóstica mais aprofundada. A indicação depende do resultado da triagem e da avaliação especializada.
Como saber se um bebê não está ouvindo bem?
Dificuldades de resposta a sons e atrasos posteriores na comunicação podem levantar suspeita, mas somente a avaliação auditiva adequada pode esclarecer o quadro.
Perda auditiva congênita tem cura?
Depende da causa. Algumas condições podem receber tratamento específico, enquanto outras exigem reabilitação auditiva e acompanhamento. O objetivo é oferecer à criança o melhor acesso possível à comunicação e ao desenvolvimento.
Por que o diagnóstico precoce é tão importante?
Porque permite reduzir o tempo até o início das intervenções necessárias em uma fase crítica para o desenvolvimento da comunicação, linguagem e habilidades sociais.
Quanto mais cedo a audição é compreendida, mais cedo o desenvolvimento pode ser apoiado
Nem todas as causas de perda auditiva congênita podem ser evitadas. Isso é especialmente verdadeiro para muitas alterações genéticas.
Mas perder tempo diante de uma alteração auditiva pode ser evitado.
O teste da orelhinha, o acompanhamento dos bebês com fatores de risco e a investigação diagnóstica quando necessária permitem transformar uma alteração silenciosa em informação clínica concreta.
Quando a perda auditiva é confirmada, o objetivo não é apenas encontrar um resultado em um exame. É compreender as necessidades daquela criança e criar condições para que ela tenha acesso à comunicação, ao acompanhamento e às intervenções adequadas o mais cedo possível.
Se o seu bebê não passou na triagem auditiva, possui fatores de risco para perda auditiva ou existe qualquer dúvida sobre sua resposta aos sons, uma avaliação especializada pode esclarecer o próximo passo com precisão e segurança.
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Fontes e referências
Post da Clínica Luiz Pires de Mello que inspirou este artigo:
https://www.instagram.com/p/DbJ4t0hmUcj
Organização Mundial da Saúde, World Report on Hearing:
https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/339913/9789240020481-eng.pdf
Organização Mundial da Saúde, Deafness and Hearing Loss:
https://www.who.int/health-topics/hearing-loss
Organização Mundial da Saúde, Rubella:
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/rubella
Ministério da Saúde, Diretrizes de Atenção da Triagem Auditiva Neonatal:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-pessoa-com-deficiencia/publicacoes/diretrizes-de-atencao-da-triagem-auditiva-neonatal.pdf/view
Ministério da Saúde, Guia para Realização da Triagem Auditiva Neonatal e Seguimento Assistencial, 2025:
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_triagem_auditiva_neonatal.pdf
Ministério da Saúde, Cuidado Neonatal e Teste da Orelhinha:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-crianca/cuidado-neonatal
CDC, Congenital CMV and Hearing Loss:
https://www.cdc.gov/cytomegalovirus/congenital-infection/hearing-loss.html
CDC, CMV in Newborns:
https://www.cdc.gov/cytomegalovirus/congenital-infection/index.html
CDC, EHDI 1, 3, 6 Benchmarks:
https://www.cdc.gov/hearing-loss-children/articles/baby-hearing-screening-infographic.html
Estudo brasileiro sobre Triagem Auditiva Neonatal:
https://www.scielo.br/j/csc/a/W7GRyFX5NwhRKFvmxHsdkZN/?lang=pt
Sobre o Autor
Responsável técnico pelo conteúdo:
Equipe médica da Clínica Luiz Pires de Mello
Especialidade: Otorrinolaringologia
Este conteúdo foi desenvolvido com base na experiência clínica acumulada pela Clínica Luiz Pires de Mello, instituição dedicada à Otorrinolaringologia desde 1962. Com mais de seis décadas de atuação contínua, a clínica reúne tradição médica, precisão diagnóstica e atendimento centrado no paciente, contribuindo para a educação em saúde por meio de conteúdos informativos baseados em prática clínica e conhecimento científico.
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